segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Multicelularidade

Na verdade, não existem organismos multicelulares nos rei­nos Bactéria e Archaea.
Reconhecidamente, alguns procariotas formam filamentos e desprendem agregações de células, mas estas células associadas não trocam mensagens entre si e as suas funções não estão coordenadas. Daí que, tanto quanto sabemos, todos os organismos verdadeiramente multicelulares sejam eucariotas.
Os mais simples dos organismos multicelulares são microscópicos e consistem em pouco mais do que uma cadeia de células idênticas, mas algumas algas modernas fornecem-nos pistas sobre como a multicelularidade pode ter surgido.

A espécie amebóide chamada Dictyostelium discoideum opera habitualmente como uma célula isolada, mas em algumas oca­siões, sobretudo quando a comida é escassa, muitas das células individuais agrupam-se e toda a colónia se muda para uma nova localização.


Outros dos eucariotas simples de hoje, tal como o protozoário Volvox, possuem a capacidade de formar colónias até às 10 mil células individuais, podendo estas apre­sentar algumas diferenças celulares. Há vários anos que o Volvox fascina os cientistas; quando Anton van Leeuwenhoek (1632--1723), o famoso inventor do primeiro microscópio, pôs os olhos pela primeira vez no Volvox não conseguia acreditar no que estava a ver. A colónia formava uma bola oca e movimenta­va-se através da água aparentemente ao rolar (o nome Volvox significa, precisamente, «rolador feroz»). A maioria das 10 mil células actua como órgãos que se alimentam e nadam, batendo furiosamente os seus flagelos, e levando a que toda a colónia gire. Mas números mais reduzidos de células na colónia podem assumir uma função reprodutiva, e as colónias ou os indivíduos Volvox podem acasalar e produzir descendência adormecida. Por natureza, o Volvox reproduz-se assexualmente, e a descendência sexual parece constituir um garante contra condições particular­mente adversas.

Este exemplo ilustra todos os tipos de princípios biológicos extraordinários. Primeiro, onde se traça a linha divisória entre um indivíduo e uma colónia? A bola do Volvox parece agir como um indivíduo, no sentido em que todas as células se agrupam e trabalham em conjunto para fazê-la nadar. Mas cada célula mantém-se também e essencialmente um indivíduo, agindo com autonomia para se alimentar e para se dividir de tempos a tempos.
Outros exemplos actuais de colónias encontram-se nos recifes de corais, em que numerosos indivíduos corais de uma espécie crescem juntos como uma única estrutura, ou um ninho de for­migas, em que imensos tipos especializados de formigas traba­lham juntos. Os componentes individuais da colónia (o coral, a formiga) conseguem viver por si e talvez formar uma nova coló­nia, embora isso não seja realmente aplicável à maioria das for­migas individuais da colónia - eles dependem de outros para se reproduzirem, procurarem comida, protegerem o ninho ou manterem o ninho fresco.

Mas quais são as vantagens da multicelularidade?
Devem ser muitas, porque a multicelularidade surgiu muitas vezes inde­pendentemente e ainda se está a desenvolver em algumas algas, como a Volvox. As vantagens da multicelularidade incluem, ao ter células especializadas, uma maior eficiência na alimentação, na movimentação, na reprodução e na defesa. Uma célula espe­cializada que tem apenas de alimentar ou facultar uma virulenta capacidade defensiva pode possivelmente evoluir muito mais e especializar-se a um nível muito mais elevado do que uma célu­la simples alguma vez poderia conseguir, tendo de assumir todos os serviços e funções normais da vida.
Há igualmente vantagens claras em ser maior do que microscópico, não neces­sariamente por grande ser sempre melhor, mas por se ser o único organismo grande num mar de anões. Estas vantagens incluem acesso a novas fontes de alimentação, como presas maiores, e a possibilidade de se moverem mais rapidamente e por distâncias maiores.

Fonte : Breve história da vida. Michael J. Benton. Texto



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